quarta-feira, 26 de junho de 2019

Como saber se a criança está de fato aprendendo na escola?

Recentemente fui abordada por uma querida amiga que dividiu comigo sua angústia sobre educação. Dizia que tinha ouvido de uma mãe de uma criança da escola do seu filho – um ano mais adiantado – que mais da metade da sala não havia atingido a aprendizagem desejada e que a professora havia sugerido que fizessem uso de aulas particulares para reforçar o conteúdo de alguma maneira não absorvido. Ela estava indignada com a situação e perplexa por considerar que garantir a aprendizagem efetiva era papel da escola regular. E não de estratégias complementares ou para além do período convencional de escolaridade.

Concordei com ela. De fato, a criança precisa e pode aprender fundamentalmente no espaço escolar. Esse é um espaço consolidado de ensino-aprendizagem, de compartilhamento do conhecimento historicamente acumulado, de verificações constantes de aprendizagem e de incentivo permanente de superação de estágios de entendimento, avançando sempre nesse contexto para pensamentos e formulações mais complexos e elaborados.

Portanto, uma turma a qual mais da metade não conseguiu absorver um determinado conteúdo não me parece estar seguindo uma trajetória muito eficaz de ensino. Não são as crianças que têm que se adaptar ao currículo. Mas é a escola que precisa encontrar mecanismos e caminhos para garantir que todos aprendam.

A paixão pela aprendizagem deve ser a tônica
Nesse contexto, algo precisaria ser revisto. Porque o “ideal” é que a criança queira e goste de aprender, que consiga absorver com curiosidade e predisposição o mundo a sua volta. Sim, sei que esse cenário nem sempre é tão cristalino como acabei de descrever, mas é o desejável. Em uma turma grande, sabemos, os níveis e ritmos de aprendizagem nunca serão padronizados, idênticos. Cada criança é um ser único, com suas características, facilidades e desafios particulares, visões de mundo e histórico familiar igualmente singular.

Simplesmente aceitar o fato de que mais da metade dos alunos de uma turma não conseguiu entender do que tratava uma determinada matéria é, no mínimo, um indicativo de dúvida sobre o processo que está sendo deflagrado e de suas possíveis lacunas. Os exemplos foram os mais eficazes? Em quanto tempo aquele assunto foi tratado? As terminologias usadas eram acessíveis à faixa etária? O(a) professor(a) conseguiu acompanhar o progresso da turma e perceber possíveis dificuldades no percurso? Os exercícios propostos tinham um propósito claro e foram crescendo em dificuldade de forma paulatina? As verificações de aprendizagem foram episódicas ou processuais? Se após todas essas perguntas terem sido positivamente respondidas ainda assim a turma apresentar dificuldades, vale uma análise mais individualizada para perceber em que estágios de desenvolvimento cognitivo estão e como fazer para apresentar com mais eficácia novos conteúdos.

Porém…
Isto posto, queria dizer que o mundo contemporâneo nos reserva algumas surpresas inevitáveis com relação ao que deve ser aprendido e absorvido por nossas crianças daqui para frente. Por mais que os pais se angustiem com uma aprendizagem eminentemente escolástica e livresca de seus filhos, baseando-se normalmente na forma como aprenderam no passado, por mais que cobrem dos pequenos a memorização de fatos, datas e figuras históricas, que queiram que as crianças saibam de cor a tabuada e memorizem os afluentes do Amazonas, tal qual fizeram há 30 anos atrás, sinto desapontá-los mas não serão estes os conhecimentos que serão “cobrados” dos seus filhos no frigir dos ovos do volátil e incerto século XXI.

Os ambientes educativos mais inovadores precisam ser capazes de gerar um clima favorável para a troca de conhecimento. E para o desenvolvimento de habilidades em três campos distintos: cognitivo, intrapessoal e interpessoal. Se estiver falando grego, pode deixar que começo agora a trocar em miúdos!

O que estará de fato em jogo no futuro
Não pretendo esmiuçar todas as habilidades contemporâneas já mapeadas, mas mencionarei algumas delas.
Não basta memorizar um conteúdo, por exemplo.  É preciso saber articulá-lo, colocá-lo em contexto. Portanto, pensamento crítico é essencial. Está com um pepino daqueles nas mãos? Então, no século XXI a habilidade de resolver problemas será cada vez mais cobrada e valorizada. Pense nisso toda vez que flagrar seu filho dando um jeitinho para resolver uma questão complexa com criatividade e artimanha! Isso valerá ouro no futuro.  Seu filho tem um problemão daqueles pela frente e precisa escolher qual caminho seguir, mas não está fácil? Então, a tomada de decisão (acertada, de preferência) estará cada vez mais em voga no mundo do trabalho que as crianças de hoje frequentarão no futuro, independentemente da função ou da carreira que escolham. Para não ficarmos só na esfera cognitiva, habilidades interpessoais e intrapessoais como trabalho em equipe, automonitoramento, iniciativa, flexibilidade, autodidatismo, perseverança, empatia e valorização da diversidade serão palavras-chave definidoras do sucesso das novas gerações.